* Mergulho! Acidentes que podem acontecer.

Escrito Por: Jacques Viaud Publicado em: * Conhecendo seu Corpo Data de Criação: 16/09/2018 Acessos: 271

Acidentes possíveis no mergulho

Os acidentes que acontecem no mergulho tanto em apnea como com aparelho auxiliar de respiração e ocorrem devido à variação da pressão ambiente e recebem duas denominações, uma de efeito direto da pressão sobre os organismos, definida pela Lei de Boyle, onde a pressão atua sobre o volume dos gases nas cavidades aéreas, causando, barotraumas, hiperdistensão pulmonar e vertigens, e a outra de efeito indireto da pressão sobre o organismo, definida pelas Leis de Dalton e Henry, quando atuam sobre as pressões parciais e solubilidade dos gases, narcose, apagamento intoxicações gasosas e doença descompressiva. É importante ressaltar que o afogamento também é um acidente de mergulho, por ocorrer em ambiente aquático. Um dos acidentes mais comuns é o barotrauma ele ocorre devido a variação da pressão a que o mergulhador ou vítima esteja exposto durante uma imersão. O barotrauma ocorre em função de quatro circunstâncias, variação de pressão, da dificuldade de equalização do ar nas cavidades ocas, pela inflexibilidade de certas cavidades e pela inexistência temporária da equalização de uma destas cavidades.

* Barotrauma de ouvido externo

Ocorre quando o conduto auditivo é fechado pela utilização inadequada de tampões de natação, capuzes, ou mesmo de cerume. O quadro clínico em geral é descrito por dor, pode haver sangramento no conduto, diminuição da audição, secreção nasal. O tratamento é a suspensão da atividade de mergulho por tempo variável, avaliação otorrinolaringológica, uso de medicações prescritas e acompanhamento médico.

Dica: Jamais utilize tampões de ouvido para mergulhar

* Barotrauma do ouvido médio

Acontece na maioria das vezes pela falta de conhecimento da manobra de Valsalva, utilização de capuz muito apertado, utilização de tampões de natação e até mesmo pelo acumulo de cerume nas cavidades auditivas.

Dica: Caso seu capuz esteja muito apertado, é necessário com o auxílio de uma agulha, fazer alguns furos na região da orelha

* Barotrauma do ouvido interno

Um dos acidentes mais graves se não for corretamente identificado e tratado. Ocorre pela diferença de pressão entre o ouvido médio e o interno, causando a ruptura do tímpano, dor, distúrbios, visuais e auditivos, náuseas, vômitos, nistagmo, desorientação, pode haver e até pequenas hemorragias. Caso identifique algum desses sintomas após um mergulho, suspenda imediatamente as atividades e faça uma avaliação otorrinolaringológica.

Dica: Caso ocorra a ruptura do tímpano durante o mergulho para se orientar basta soltar algumas bolhas de ar pela boca e segui las até a superfície.

* Barotrauma sinusal

Barotrauma dos seios da face acomete mais comumente os seios maxilares e os seios frontais, por conterem um volume maior de ar, ocorre pela obstrução dos óstios sinusais (pequenos furos). Quadro clínico manifesta-se pela dor na região, irradiando para face, ouvidos e mandíbula. O tratamento é a suspensão da atividade de mergulho, medicação prescrita e avaliação otorrinolaringológica.

* Barotrauma dental

Acomete em geral dentes cariados ou já obturados, pode ocorrer durante a compressão, mas é mais comum durante a descompressão, devido à expansão dos gases. O quadro clínico se manifesta por uma dor muito forte e aguda com irradiação para ouvidos e mandíbula. O tratamento é analgesia, avaliação e tratamento odontológico.

* Barotrauma cutâneo

Causado pela compressão de bolhas aprisionadas na roupa ou equipamento de mergulho, quando o mesmo não ajustado. Geralmente estas bolhas localizam-se nas dobras do joelho e cotovelo, produzindo lesões cutâneas nestes sítios. Quadro clínico são equimoses. O Tratamento com compressas frias e avaliação médica.

* Barotrauma facial

Comumente acomete os olhos, quando na retirada da máscara de mergulho após uma pressurização, a pressão contida na máscara pressurizada quando mal retirada pode acarretar em edemas, pequenas hemorragias ou mesmo numa enucleação do globo ocular. O quadro clínico manifesta-se por dor e pode haver hemorragia. O tratamento é hospitalar. Existe também uma situação de paralisia facial, que pode acometer ou não paralelamente com vertigens, este quadro de paralisia facial está relacionado à diminuição da vascularização do nervo facial devido ao aumento da pressão, em geral o tratamento da paralisia é espontâneo com a diminuição da pressão.

* Barotrauma torácico

Segundo a Lei de Boyle, a pressão e o volume são valores inversamente proporcionais, isto é, quando um aumenta o outro diminui. Dessa forma, à medida que o mergulhador vai descendo, a pressão aumenta consideravelmente e, por consequência, os pulmões vão-se comprimindo, reduzindo seu volume. A partir de um determinado ponto (quando se atinge o limite do volume residual), a flexibilidade da caixa torácica impede aos pulmões continuarem reduzindo seu volume e se o mergulhador prosseguir, haverá uma congestão e passagem de transudado (líquido que extravasa de uma membrana ou vaso sanguíneo) para o interior dos alvéolos, e finalmente edema agudo de pulmão.

* Vertingens

É a incapacidade de manter o equilíbrio e de orientação espacial, pode ocorrer pela variação de pressão (alternobárico) e pela troca de calor (calórica). Quadro clínico apresenta, náuseas, desorientação espacial, desequilíbrio, vômitos, nistagmo e pode ocorrer distúrbio auditivo. Tratamento, a remissão do quadro normalmente é espontânea.

* Síndrome da Hiperdistensão Pulmonar (SHP)

Ocorre quando se respira ar comprimido ou outra mistura gasosa sob pressão, em uma determinada profundidade, e retornar à superfície sem exalar ou numa velocidade incompatível a capacidade pulmonar de expirar.

Durante uma superficialização se não houver exalação ou se a superficialização for muito rápida, a capacidade total pulmonar se torna inferior a expansão desses gases, como previsto pela lei de Boyle, o que leva ao rompimento dos alvéolos.

Essas bolhas podem passar para o espaço intersticial, dissecando os tecidos pulmonares junto ao trajeto de vasos sanguíneos e bronquíolos e saem dos pulmões, localizando-se no espaço mediastinal, pneumomediastino, podem subir para região do pescoço e fossa supraclavicular, enfisema subcutâneo, os alvéolos próximos à superfície dos pulmões que se rompem diretamente para o espaço pleural promoverão um pneumotórax e a penetração de gás/ar na corrente sanguínea, através de vaso capilar roto, evoluirá para uma embolia traumática pelo gás/ar denominada ETG/ETA.

O Quadro clínico é variável, pode ocorrer dor, hemorragia oral, perda dos sentidos, diminuição na ausculta pulmonar, dispneia, taquicardia, dor retroesternal, mudança no timbre de voz e outras. O tratamento é a recompressão hiperbárico com oxigênio a 100% exceto em casos de pneumotórax não tratados.

* Narcose

É um fenômeno biofísico relacionado a gases metabolicamente inertes no organismo humano, está ligada a pressão parcial do gás e a sua afinidade lipídica.

O nitrogênio, gás inerte que faz parte da composição do ar atmosférico, produz, quando inalado sob pressão um efeito narcótico, traduzido por um conjunto de sinais e sintomas bastante similar a intoxicação causada pelo álcool.

O nitrogênio é bastante solúvel em gorduras e sob pressão se dissolve na membrana citoplasmática dos neurônios que é lipoprotéica, o que interfere na transferência de impulsos nervosos. É observável na faixa de 30 a 50 metros de profundidade dependendo da susceptibilidade individual. O tratamento se faz pela superficialização, onde a reversão do quadro da narcose é instantânea.

* Apagamento e Samba

Apagamento é uma hipóxia por definição, decorrente da diminuição da pressão parcial do oxigênio (inferior a 16%), durante uma superficialização, em mergulhos em apneia. Em geral a vítima ao tentar retornar a superfície apaga aos 5 ou 7 metros da superfície e termina se afogando.

Os sintomas de hipóxia podem ser fraqueza, cansaço, falta de concentração, cefaleia, tonteira, vertigem, incoordenação motora, cianose, sonolência e perda da consciência. O tratamento, quando não seguido de afogamento, se faz retirando a vítima da água e se possível administrar oxigênio através de máscara bolsa, de 10 a 15 litros por minuto.

Samba no mergulho não é uma dança nem um acrônimo, é uma denominação aplicada à resposta fisiológica de uma alcalose, efeito decorrente de respirações rápidas que produzem desequilíbrio acidobásico.

Este termo foi adotado em competições internacionais de apneia, porque é comum a vítima apresentar falta de coordenação motora e agito frenético das mãos, sintomas de vertigem, náuseas e vômitos, dormência ou formigamento nas extremidades, ou mesmo uma síncope (perda rápida dos sentidos) também pode aparecer.

Até o momento este acidente é desconsiderado por muitos, principalmente porque 95% dos mergulhadores que passam por isso, conseguem escapar do afogamento. Este acidente pode ocorrer em natações de curta distância, apneia dinâmica ou estática, e em exercícios que ocorra troca de bocal de mergulho, em geral acomete na superfície, contudo, num mergulho em apneia.

A hiperventilação associada à manobra de valsalva, pode influenciar no aporte de oxigênio para o cérebro, gerar uma resposta vagal devido à pressão torácica sofrida no mergulho, e fatalmente levar o mergulhador a um apagamento. A hiperventilação diminui a pressão parcial do dióxido de carbono (CO2), podendo gerar uma condição fisiológica conhecida como alcalose respiratória.

* Intoxicação pelo Oxigênio

O oxigênio em excesso eleva a quantidade de radicais livres, acima da capacidade do nosso organismo de neutraliza-los, ocorrendo daí uma intoxicação que afeta o Sistema Nervoso Central (SNC) e o aparelho respiratório. A intoxicação pode ser aguda ou crônica.

1- Intoxicação neurológica pelo O2 (efeito agudo “Paul Bert”) pode ocorrer com pressões acima de 1,6 ATA, no entanto, mais comum quando acima de 2,5 ATA. Os sinais e sintomas são memorizados através do emprego do acrônimo VANTIT, que significa: vômitos, visão em túnel, alteração auditiva, náuseas, tonteiras, irritabilidade e tremores. O tratamento se faz pela redução de pressão.

2- Intoxicação pulmonar pelo O2(efeito crônico “Lorrain Smith”), ocorre de forma progressiva, por exposição prolongada ao oxigênio, onde sua pressão parcial seja superior a 0,5 ATA. Os sinais e sintomas são dor no peito, queimação, tosse incontrolável, dispneia, pode ocorrer sangramento e perda até 10% da capacidade vital e deixar sequelas. Tratamento repouso deve ocorrer avaliação médica.

* Intoxicação por CO2 (HIPERCAPNIA)

O dióxido de Carbono é o resultado da queima do oxigênio, em equipamentos de mergulho e nos submarinos um absorvedor (cal sodada) é utilizada para retenção deste gás. Esta intoxicação é a mais comum na área do mergulho.

O quadro clínico apresenta-se com respirações curtas e aceleradas, sensação de sufocação, taquicardia, frio ou calor excessivo, salivação, cefaleia, tonteira, desorientação, perda de consciência. Tratamento espontâneo ao colocar a vítima em área arejada, ou uso de oxigênio.

* Doença Descompressiva (DD)

Por definição é um quadro consequente a uma descompressão inadequada ou omitida de um mergulho ou um disbarismo acidental ou proposital. Os fatores determinantes são três, profundidade, tempo de fundo e velocidade de descompressão.

Os sinais e sintomas são variados, contudo a presença de dores articulares, coceira, alteração na motricidade, alteração na fala, até mesmo síndromes compartimentais são comuns as vítimas. O tratamento se faz através de recompressões utilizando tabelas de tratamento hiperbárica.